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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Namorar é… (uma releitura no Twitter da famosa série “Amar é…”)

por Gustavo Gitti 27 agosto 2009 47 comentários
  

No fim dos anos 60, Kim Grove (mais conhecida pelo nome de casada, Kim Casali) desenhou algumas pequenas declarações de amor para seu futuro marido, Roberto Casali.
Ali começava a série Love is…, que continuou após a morte de Kim, em 1997, com seu filho Sefano Casali e o artista Bill Asprey produzindo novas tiras até hoje.
São memórias embaçadas e duvidosas, mas me lembro de ter visto vários desenhos da série quando pequeno, talvez em algum pano de prato, calendário ou livro de receitas na cozinha. Não descarto nenhuma opção pois creio que fizeram de tudo explorando esse casalzinho que nunca se pegava direito.
Fica o desafio ao leitor sociólogo: pesquisar o quanto Kim Casali contribuiu para a construção do imaginário amoroso atual que liga ao amor tudo aquilo que é abstrato, divino e incorpóreo, deixando a parte da carne para outras palavras, como “sexo” e “paixão”.

Amor sacana X Machismo santificado

O que seria das relações atuais se tivéssemos crescido olhando para os seguintes desenhos?

Associar os verbos amar e foder é bem melhor do que promover o machismo: “Eu te amo porque me reprimo por você, abro mão da minha liberdade e dos meus desejos, me sacrifico, sofro, perco a autonomia por você, querido”.
Além de construir uma imagem santificada (e tediosa) das relações amorosas, a série apresentava uma mulher passiva, presa e… burra. Essa visão que existe até hoje, na qual a felicidade feminina se resume a encontrar um homem lindo, inteligente e rico, sabe? Se acha que estou exagerando, assista a esse comercial da marca Melissa.
Muitos dos desenhos podem ser legais, mas deem uma olhada aqui:

Só comer pão de alho quando ele quiser, madrugar para fazer café para ele, deixá-lo ir no puteiro com os amigos e aceitar a comida que ele pedir. Genial, não? Acho que a Marjorie Rodrigues vai adorar comentar esses quatro casos, ainda mais porque a autora é uma mulher!

Namorar é…

Assim que conheci minha namorada, comecei espontaneamente a escrever no Twitter uma série de mensagens iniciadas por “Namorar é…”. Digo “conheci a minha namorada” pois eu comecei a namorar antes dela, antes mesmo de saber seu nome, fato também informado pelo Twitter:
“Antes de lhe contar que ela era sua namorada, ele perguntou pelo seu nome.”
Ela logo criou um perfil e então acompanhou as mensagens seguintes. Eu chegava no trabalho com alguma lembrança nítida da noite anterior, abria a janelinha do TwitterFox, ficava uns segundos com cara de bobo e escrevia, feliz, totalmente sem senso estético para cortar as palavras melosas.
A ideia não era criticar a série “Amar é…”, mas brincar um pouco com as ações que ambos (não só um) fazem por diversão (não por sacrifício), sem o tal do “amor incondicional”, mas com desejo, com tesão mesmo.
Listo aqui fora da ordem cronológica. Talvez tenha esquecido de uma ou outra… Cada mensagem esconde uma história – espero que não seja só do meu namoro.

Namorar é… esquecer tudo, do nada, como se não houvesse passado algum, só para fazer caber na memória as cenas da noite de ontem.
Namorar é… ter pra quem entregar aquele presente simples que você sabe que faria qualquer mulher feliz, mas que não queria dar pra uma amiga.
Namorar é… consultar a agenda de dança porque música, teatro, cinema, exposição e restaurantes já foram usados como desculpa para vê-la.
Namorar é… aprender a arte de chegar atrasado e até não ir em peças, shows e festas, deixando morrer com gosto o ingresso na carteira.
Namorar é… amar silenciosamente no escuro, sem nenhuma garantia de que o outro realmente está perto de você.
Namorar é… fazer uma compra adicional toda semana, levando só damascos, castanhas, queijos, chocolates e vinho (ok, água sanitária também).
Namorar é… se perder em palavras, jogos de linguagem, metáforas, gestos, imagens, cenas. Confundir arte e vida, ator e personagem.
Namorar é… sorrir enquanto ela decide com qual roupa vai sair, pois você sabe que ela fica mesmo linda quando se veste com seu lençol.
Namorar é… ignorar o elevador e subir 6 andares de escada só porque demora mais, não tem câmera e é mais “divertido”.
Namorar é… ter um motivo para ir ao show do Radiohead MUITO mais importante do que o próprio Radiohead.
Namorar é… se assustar ao ver brincadeiras e ideias malucas virando realidade. “Vamos…?”. Basta o outro dizer “Sim”. Basta isso.
Namorar é… parar, realmente parar. Não fazer nada (nem mesmo nada fazer). A dois, claro.
Namorar é… acordar sozinho com um único pensamento: “Por que mesmo eu não a chamei para dormir aqui?”.
Namorar é… atualizar um Gdoc com anotações e links divididos em “restaurantes”, “locais para dançar”, “ideias” e “presentes”.
Namorar é… ter tempo, muito tempo. Tempo inclusive para fingir não tê-lo, se apressar e fazer caber uma noite em um minuto.
Namorar é… sonhar com uma mulher linda andando ao seu redor, acordar tentando voltar para o sonho e se dar conta que não precisa.
Namorar é… usar email, twitter, blog, sms, caderninho, espelho do banheiro e até google calendar pra deixar recado um para o outro.
Namorar é… escrever no Twitter para 1228 pessoas e ter a certeza de que somente uma entenderá.
Namorar é… continuar com as (deliciosas) one-night stands de solteiro e, depois de anos, perceber que estava saindo com apenas uma pessoa.
Link: http://nao2nao1.com.br/namorar-e-uma-releitura-no-twitter-da-famosa-serie-amar-e/


Não Dois, Não Um

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